ÁRVORES DO AMOR


ÁRVORES DO AMOR

Grandes, pequenas, formosas, circunspectas, imponentes ou frágeis. Dão, sem pedir nada. E são, simplesmente. Respiram, respiram-nos e fazem respirar. Amam, amam-nos e fazem-nos amar. Conta-se que um jovem cavaleiro cansado de travar batalhas infindáveis e de desfecho previsível refugiava-se na floresta. As árvores ouviam-no pacientemente e um dia decidiram falar-lhe. Amai-vos uns aos Outros Como Nós Vos Amamos. Tomado de assalto pela revelação, o cavaleiro decidiu ali mesmo abandonar a carreira militar e dedicar-se a uma vida nova de aprendizagem com aquelas árvores sagradas. Estamos certos de que todos teremos muito a aprender com o mistério das Árvores do Amor. A nossa mensagem também é simples. Amar-vores uns aos Outros Como Elas vos Amam. Parece fácil. E é.


LOST IN THE TRES

Toda a criação é feita em três actos. O psicodrama individual de potência, movimento e expansão é um espelho reluzente das leis universais da tríade cósmica. Zeus, Athena e Hera. Deus, Pai e Espírito Santo. Brahman, Vishnu e Shiva. Uma lógica poeticamente matemática expressa também nos três corpos de Buda: o espaço infinito do Dharmakaya, o campo mental de formas puras do Shambogakaya e a materialização dos elementos terra, ar, água e fogo no Nirmanakaya. E foi a lógica do três, ou do terceiro incluído, se evocarmos também a perspectiva holística e transdisciplinar, que une partícula, onda, céu, terra e ser humano e senta à mesma mesa o cientista, o poeta e o místico, que inspirou o acto de criação de Zito Colaço, dando à luz a exposição "Lost in The Trees". Para dar início à sua obra, o fotógrafo também teve de passar por três estágios de ascensão. E para que estes três níveis se harmonizem são sempre inevitáveis a morte e o renascimento. O perder-se para encontrar-se de Florbela Espanca. Porque Kaos e Ordem sustentam o jogo de sombras da existência até que a visão luminosa e unificadora do Três se manifeste em toda a sua plenitude. Por isso, não é de estranhar que o Zito tenha percorrido o seu labirinto interior, túnel de luz e treva, até que a exposição pudesse nascer com a força de todas as explosões criativas, do Big-Bang à formação de estrelas e planetas, do hominídeo ao homo sapiens, dos primitivos tambores tribais às sonatas de Mozart. Três momentos, três notas rítmicas que fizeram ecoar a melodia de Lost in The Trees. Primeiro, perdeu-se quando numa hora de intervalo em pleno exercício da sua profissão, ou seja fotografar por encomenda sob ordens diárias e rotineiras de várias redacções e produtos similares de media, a sua objectiva avariou. O olhar sobre o mundo, profissional e pessoal, do Zito acabara de desfocar-se. Desfoque que, em vez de ser um contratempo, converteu-se na possibilidade de focar a realidade a partir de um outro ponto de observação. E o novo enfoque deu-se justamente durante essa penosa mas necessária hora de sofrimento e recriação, em que o fotógrafo, para jogar ao jogo de fazer tempo até ao novo telefonema profissional, descobre Sophia de Mello Breyner e abre uma nova página no seu novo manual de focagem: "A árvore antiga/Que cantou na brisa/Tornou-se cantiga”. A história de uma árvore tão gigantesca quanto milenar que, apesar de ser cultuada e respeitada pelos habitantes de uma pequena ilha, impedia os raios de Sol de entrar na comunidade e condicionava o modo de vida dos autóctones, acabando por ser sacrificada, para que novas árvores, folhas e frutos florescessem e partissem rumo fora na madeira de um barco que se tornara sagrado. A árvore renascia em novas formas de vida. E este renascimento o Zito pressente-o quando vê pela primeira vez que o desfoque podia ser nada mais do que um outro enfoque. Um ângulo cinestésico que oferece ao Zito o seu segundo processo de focagem. A sua objectiva havia acabado de renascer. E o Zito também. Focado numa visão mais ampla, à medida do desfoque técnico da academia, reaprendeu a olhar o essencial do mundo. A nossa passagem pelo Planeta como uma casa, uma morada, um palácio que deve ser tratado com respeito. Um palácio de árvores centenárias, bosques verdejantes e luz cristalina e dourada, que respira ao ritmo do Sol e do Mar. Mata do Medos, ou dunas, como se falava antigamente, por onde as vagas do ar e da água brincam com a terra, o elemento feminino, a contraparte do um, o dois, para chegar ao três. A esta união se chama na Tradição o Amor. E foi preciso o Zito perder o foco dos condicionamentos sócio-culturais e psicológicos bem como dos preconceitos dos juízos de cátedra e diploma na mão, mas que nunca buscam a arte, a paixão e o risco, condimentos essenciais do amor, para focar o Mundo “tal qual” ele é, o que lhe permitiu aproximar a lente da realidade “tal qual é”, expressão budista e vedantina da visão não-dual, igualmente constante da Presença crística, judaica ou islâmica, que é o nossa meta-percurso primordial, expansivo e eterno… E esse regresso primordial ao feminino da Mãe-Terra, ao Amor de Gaia, ao fogo da paixão que germina no silêncio contemplativo, ou pelo menos numa etapa dele, o Zito aprimorou ainda mais o olhar para focar ainda melhor o essencial do mundo, etapa iniciática de sentido ascendente consubstanciada na redenção, no aconchego, no colo das árvores que ouvem, observam e falam. E neste terceiro estágio em que as árvores são árvores mas são também seres que sentem “tudo de todas as maneiras” (pedindo emprestado o sentir pessoano), o Zito contemplou o jogo terreno, o teatro da vida onde observador e observado se confundem, fotografando aqueles momentos em que as árvores são. E são simplesmente porque “entre a árvore e vê-la onde está o sonho”. 


E o sonho do Zito chama-se fotografar todas as florestas e bosques do Mundo. Prosseguindo no sonho mas em estado de vigília. Porque Lost in The Trees é um sonho acordado que nos convida a despertar.


Texto Nuno Costa
Fotografias Zito Colaço









Zito Colaço, 
na Reserva Botânica da Mata Nacional dos Medos,
parte integrante da Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica,
 no Concelho de Almada. Portugal.












Zito Colaço, 
na Reserva Botânica da Mata Nacional dos Medos,
parte integrante da Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica,
 no Concelho de Almada. Portugal.
























Zito Colaço, 
na Reserva Botânica da Mata Nacional dos Medos,
parte integrante da Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica,
 no Concelho de Almada. Portugal.






 

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