"Olha por esta janela e vê as Árvores mortas a dançarem para o mar".
Houve um grito de fogo onde antes morava o silêncio do vento.
Agora, na moldura desta janela que o olhar inventou, as árvores já não têm folhas, nem ninhos, nem sombra para dar. Ficaram apenas os corpos — linhas negras desenhadas a carvão contra o azul — que o fotógrafo viu não como mortas, mas como bailarinas do invisível.
Perto da Lagoa de Albufeira, onde a terra se dissolve na areia, estes esqueletos de resina e saudade inclinam-se. Não é o peso da cinza que as curva; é o chamamento do sal. Elas dançam para o mar, num passo lento de quem se despede da terra para se tornar espuma, horizonte e memória.
Zito não capturou a destruição, mas a transmutação. Cada tronco retorcido é um braço erguido numa vénia final; cada ramo despido é um dedo que aponta para a imensidão. Nesta dança de despedida, a morte não é um ponto final, é um movimento fluido, uma elegia de madeira que, mesmo queimada, ainda sabe como procurar a luz e o infinito.
"Olha por esta janela," diz-nos o título, e o que vemos é o luto a transformar-se em arte, e o fogo a render-se, finalmente, à serenidade das ondas.
Fotografias Zito Colaço
"Olha por esta janela e vê as Árvores mortas a dançarem para o mar".
Houve um grito de fogo onde antes morava o silêncio do vento.
Agora, na moldura desta janela que o olhar inventou, as árvores já não têm folhas, nem ninhos, nem sombra para dar. Ficaram apenas os corpos — linhas negras desenhadas a carvão contra o azul — que o fotógrafo viu não como mortas, mas como bailarinas do invisível.
Perto da Lagoa de Albufeira, onde a terra se dissolve na areia, estes esqueletos de resina e saudade inclinam-se. Não é o peso da cinza que as curva; é o chamamento do sal. Elas dançam para o mar, num passo lento de quem se despede da terra para se tornar espuma, horizonte e memória.
Zito não capturou a destruição, mas a transmutação. Cada tronco retorcido é um braço erguido numa vénia final; cada ramo despido é um dedo que aponta para a imensidão. Nesta dança de despedida, a morte não é um ponto final, é um movimento fluido, uma elegia de madeira que, mesmo queimada, ainda sabe como procurar a luz e o infinito.
"Olha por esta janela," diz-nos o título, e o que vemos é o luto a transformar-se em arte, e o fogo a render-se, finalmente, à serenidade das ondas.
Fotografias Zito Colaço
VIDEO
https://www.youtube.com/watch?v=CJzE28XSgGA
FOTOGRAFIAS ZITO COLAÇO
O FOGO
De Divindade a Diabo
A história do fogo não começa na terra, mas no céu. Durante milénios, fomos apenas espectadores do relâmpago. O fogo era um deus errante, uma força externa que tanto podia aquecer como devorar.
Quando o ser humano aprendeu a domesticar a chama, o destino da nossa espécie mudou. O fogo deu-nos a Luz que expulsou os predadores e a escuridão das cavernas.
O Alimento, que permitiu ao nosso cérebro crescer e evoluir através da cozedura. O Encontro, onde nasceu a linguagem, à volta da fogueira, na partilha de histórias e afectos.
Nesta fase, o fogo era sagrado. Sabíamos que, sem ele, morreríamos de frio; mas, com ele fora de controlo, seríamos cinza. Havia respeito.
A Era da Arrogância
Com o passar dos séculos, o fogo deixou de ser um deus para se tornar uma ferramenta. Industrializámo-lo. Fechámo-lo em motores, em caldeiras e em fábricas. Começámos a acreditar que o dominávamos por completo.
Nesta transição tornámo-nos negligentes. O fogo deixou de ser uma presença viva para ser apenas um subproduto do nosso consumo. Esquecemo-nos de limpar as "matas encantadas" e a nossa própria "alma", acreditando que a Natureza seria eternamente benevolente, independentemente do nosso desprezo.
Hoje, quando o fogo consome uma floresta ou qualquer outra cicatriz do nosso território, ele não está a ser "natureza". Está a ser o resultado da nossa ausência.
O Fogo Destruidor é o sintoma de uma sociedade que deixou de cuidar do território.
O Fogo que Devora é o reflexo da solidão de quem abandona o interior e o chão que pisa.
Limpar a "Mata Interior" (O Lixo da Alma)
Antes de cuidarmos do que está fora, precisamos de organizar o que nos habita. A negligência com o meio ambiente é muitas vezes um reflexo da nossa desordem interna.
Pratique a "Higiene do Olhar": Force-se a ver a beleza no quotidiano. Deliciar-se com o aroma da esteva não é futilidade; é um ato de resistência contra o cinismo.
Abandone a Vitimização: Substitua a pergunta "Por que é que o mundo está assim?" por "O que é que eu posso proteger hoje?". A mudança de foco retira-nos do papel de vítimas do destino e coloca-nos como guardiões da vida.
Cure a Solidão em Comunidade: O Diabo prospera no isolamento. Envolva-se em causas locais, fale com os vizinhos, recupere o sentido de "nós". Uma comunidade unida vigia melhor a sua floresta e os seus idosos.
Limpar a "Mata Sagrada" (O Lixo da Terra)
A memória de Pedrógão Grande ensinou-nos que a Natureza não perdoa o abandono. O Paraíso exige manutenção.
O Princípio da Proximidade: Se tem um terreno, limpe-o. Se não tem, ajude quem tem. Participe em movimentos de reflorestação com espécies autóctones (carvalhos, sobreiros, castanheiros) que são mais resistentes ao fogo do que o eucalipto.
Consumo Consciente: Cada escolha de compra é um voto no tipo de paisagem que queremos. Apoiar produtos locais e pastoreio ajuda a manter o mato limpo e a economia rural viva.
Vigilância Ativa: Não espere pelo Estado ou pelos políticos. Seja os olhos da sua região. Denuncie descargas de lixo, denuncie comportamentos de risco e, acima de tudo, eduque os mais novos para que o "encanto" que mencionou não se perca nas gerações futuras.
O Diabo está entre nós, não o subestimem
Quando o terror de tudo aquilo que não se consegue explicar no momento imediato da crise nos assalta, tem de se culpar alguém. Ou os políticos, ou os vizinhos ou a mãe Natureza, ou o Universo e todas as forças do mal. É de facto diabólico ver pessoas (que podíamos ser nós), a ser engolidas pelas chamas num ápice de tempo, deixando um desespero e uma impotência avassaladora que transbordam na identidade coletiva de um povo que agora chora o infortúnio do Destino.
O Diabo somos nós. Somos o Diabo sempre que não nos amamos, nem cuidamos uns dos outros, sempre que não respeitamos o espaço e o tempo uns dos outros, sempre que nos abandonamos em solidões indizíveis e nos vitimizamos por tudo o que não damos, mas ainda assim queremos receber. Somos Diabos negligentes sempre que não limpamos o lixo dos outros na nossa alma, na nossa casa, nas nossas matas e florestas encantadas. Somos o Diabo sempre que abdicamos do encanto da vida para sermos nós a sujar, a não cuidar, a não olhar, e a não sentir a comunhão com o outro e com a Natureza que nos rodeia, e a exigir sempre a sua bênção como os seres mais merecedores das graças do Cosmo. O Diabo somos nós sempre que procuramos a culpa fora de tudo o que está ao nosso alcance, que verdadeiramente, é tanto!
Somos o Diabo sempre que fechamos os olhos ao ser divino que mora dentro de cada um de nós. Sempre que não nos deliciamos perante a magia de cada árvore, sempre que não bebemos de cada fonte de paz, prazer e serenidade que nos oferece cada caminho ao ar livre, sempre que não sorrimos com o perfume enfeitiçado da esteva e do alecrim. Somos o Diabo porque deixámos de nos encantar com a Natureza. E não temos de carregar essa culpa, ela igualmente diabólica. Temos de nos despir dessa necessidade infernal de resolver os problemas com estratégias falhadas de fuga/ataque. Por Pedrógão Grande e por todas as tragédias das nossas memórias individuais e coletivas e de todas as energias que unem o passado ao futuro, a hora é agora: o Paraíso somos nós, basta amarmos e cuidarmos do nosso meio ambiente. Não o subestimem!






















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